Textes en ligne

© aiep - 9 décembre 2005 - www.clinique-transculturelle.org



Télécharger le fichier en format .pdf imprimable

 

Pour citer cet article :
Solis L, Moro MR. Mulheres, mães e filhas. O papel da terapeuta mulher na consulta mãe-bebê In : Pereira da Silva MC., Ser pai, ser mae – parentalidade : um desafio para o terceiro milênio. Brésil : Casa do Psicologo ; 2004. p. 67-76.

 

Mulheres, mães e filhas. O papel da terapeuta mulher na consulta mãe-bebê

Leticia SOLIS
Marie Rose MORO

Nosso objetivo é mostrar a influência que pode ter o sexo do terapeuta, no caso uma mulher, sobre o trabalho de consulta mãe-bebê ou pais-bebê. Partiremos de algumas noções que nos parecem o centro da constituição da feminilidade e da maternidade, a saber :
– o componente erótico e maternal da sexualidade feminina, cujo roteiro se inscreve no corpo feminino.
– a influência desses fatores na ligação mãe-filha e sua transmissão.
– a especificidade de certos tipos de intervenções terapêuticas durante as consultas.
– o valor metaforizante e de enactment dessas intervenções.

Algumas observações a respeito da sexualidade feminina e da organização do psiquismo

A ligação que existe entre o desenvolvimento psicossexual da criança e a organização da vida psíquica foi posta em evidência pela psicanálise. Entretanto, como sabemos, Freud se ocupou sobretudo da trajetória do menino e apenas reconheceu que a sexualidade feminina e o caminho que a menina deve seguir para tornar-se uma mulher são um pouco mais obscuros. Em 1937, Freud encontrou, por assim dizer, "a rocha" na qual a psicanálise vai bater com o enigma da feminilidade e a recusa do feminino (Schaeffer, 1997). Porém, a introdução no aparelho psíquico da diferença anatômica entre os sexos e o Complexo de Édipo que se resolverá, mais ou menos, com a interdição do incesto permitem que a organização mental passe do estado de indiferenciação ao estruturado. Essa organização, levando-se em conta a dupla diferença constitutiva, aquela dos sexos e aquela das gerações, oferece à criança um código de acesso à complexidade de sua vida mental. Dele ela retirará paradoxalmente um benefício : adaptar-se ao princípio da realidade.

Para a menina, esse caminho demanda desvios complementares ao percurso de um menino. Ela tem também a sua mãe como primeiro objeto de amor, mas, para alcançar a sexualidade adulta e tornar-se mais tarde uma mulher e uma mãe, deverá renunciar a esse amor para se voltar, na constelação edipiana, em direção ao pai... O que restará desses amores ? Como a pré-história amorosa da menina terá um papel na sua vida adulta ? Talvez seja necessário também ter vivido para pensar nisso e o criador desta ciência empírica que é a psicanálise estava bastante mal instrumentado se, nesse domínio, há o fato de se ter um corpo de mulher e um percurso de mulher como ferramentas importantes. Porque é no nível do corpo que o problema do feminino se coloca. Freud fará do desejo do pênis e do complexo de castração os elementos constitutivos do feminino e a origem dos conflitos. É a hipótese falocêntrica, que, ainda que pertinente a uma certa etapa do desenvolvimento, parece insuficiente para uma boa compreensão da sexualidade feminina. Para Freud, diante da percepção traumática da ausência de um órgão, a menina pode ter três reações diferentes : pode se desviar de todo interesse pela esfera sexual, negar a diferença por um mecanismo maníaco e, terceira possibilidade, aceitar a constelação edípica com o pai, solução que propicia o nascimento da feminilidade (Freud, 1931).

Então, para Freud, a bissexualidade se coloca de maneira mais importante na menina do que no menino. Ela tem uma importância maior para a menina pelo fato da predominância do clitóris, equivalente feminino do pênis, que desenvolve seu papel de órgão de prazer, antes que a vagina e mais tarde o útero possam ser descobertos e investidos. De fato, a experiência do feminino passa por duas fases : a primeira tem um caráter masculino, enquanto somente a segunda é especificamente feminina. Trata-se da descoberta do interior sexual do corpo com a penetração que esta implica. Entretanto, a função do clitóris perdurará na vida sexual da mulher.

 Corpo feminino-corpo maternal

G. Devereux (Devereux, 1985) estudou a sexualidade feminina e a organização da vida conjugal. Ele traz observações interessantes que parecem ser importantes de levar em consideração na construção de parentalidade. Ele situa a diferença entre o homem e o animal na particularidade da sexualidade feminina humana. Essa sexualidade é ao mesmo tempo sensual e maternal, contrariamente à sexualidade animal, na qual se alternam fases de cio e de maternidade ; ele nota a tendência feminina a erotizar o nascimento e a maternizar o coito.

Parece importante interrogar-se sobre o caminho do tornar-se mulher : quais as repercussões na vida fantasmática da mulher desse "prazer de ser penetrada", sobretudo sobre a transmissão que a mãe faz à sua filha do papel desse masoquismo "constitucional", e quais são as conseqüências desse masoquismo dito constitutivo ou mais exatamente transmitido, quer dizer, aprendido na vida social ? Pode-se talvez distinguir a imagem social e certamente adaptativa do "status de mulher" e "o sentimento de ser uma mulher" que comportaria a harmonização dessa dupla face do corpo feminino, na sua vertente erótica e sexual como na vertente maternal. Distinção que nos remete à célebre frase de Simone de Beauvoir : "Não se nasce mulher, torna-se mulher." A questão reside, portanto, nos parece, no caminho que segue a menina para tornar-se uma mulher, caminho que J. Schaeffer ilustra (cap. VII).

Nós somos levados a nos perguntar sobre as novas condições das relações mãe-filha, quando as mães não renunciam à sua sexualidade quando a filha atinge a puberdade e começa a própria vida sexual. Pode-se falar de uma nova ordem nas relações das novas famílias ? Existe uma ordem geracional ? E de qual ordem se trata ?

Fragmentos psicanalíticos

O conjunto dos fenômenos complexos, próprios da sexualidade feminina, aparece durante o tratamento psicanalítico por meio da transferência e da contratransferência. Alguns elementos conflituais próprios do pólo erótico e maternal vão se reativar e, em particular, pegar o corpo da análise como roteiro, quando paciente e terapeuta dividem um corpo de mulher. Esses elementos que passam por sensações no nível do corpo do analista constituem marcas da ligação transferencial e além da pré-história sexual daquela que fala. Eles permitem o acesso a elementos arcaicos da vida psíquica da paciente, testemunhando a proximidade, até a fusão que existe em certos casos entre as representações do corpo maternal e as do corpo de sua filha. A circulação das fantasias canibais e das fantasias de fusão, fortemente impregnados de ambivalência, são então elementos correntes. Por outro lado, esses elementos nos levam a constatar que os fenômenos que descrevemos relativos à parentalidade e particularmente à maternidade não são exclusivos da etapa da pré-natalidade, mas estão presentes ao longo da vida da mulher e vão se manifestar e se reorganizar segundo as etapas da vida.
Alguns momentos emprestados da análise de uma paciente difícil serviram para ilustrar nossa proposta.

Daniella, um corpo vazio a preencher de sentidos

Daniella, 22 anos, originária de um país da América do Sul, estudante de economia, fugiu da ditadura militar de seu país com a família e viveu, na infância, um exílio doloroso. Ela suporta dificilmente o que chama de a ditadura do pai e a depressão constante da mãe, fruto dos maus-tratos do marido. A avó e a mãe de Daniella foram maltratadas pelos maridos ; a avó, emigrada da Turquia, morreu de câncer, enquanto sua filha tentou várias vezes o suicídio.

Quando Daniella me pede um tratamento ela se diz "devoradora compulsiva, como seu pai ; ele chega a comer cinco pratos de espaguete e oito escalopes". Por outro lado, considera fazer uma cirurgia de diminuiçãodos seios, como sua mãe. Em seus estudos, ela se sente bloqueada, estúpida, não pode pensar, apesar de seu pai, militante, discutir política com ela. "Eu nasci errada e me solidarizo (com minha mãe ?) para destruir meu corpo", disse. Ela sofre de dismenorréia, o que associa à sua recusa de se tornar mulher.

Durante os primeiros anos da análise, que durou oito anos, o tema central das sessões era sobre sua voracidade alimentar e a vergonha que experimentava em relação ao próprio corpo.

Na transferência maternal, que ela manifestou bem cedo, aparecia sua necessidade de proximidade ao mesmo tempo que o medo de ser engolida e o desprezo a tudo o que podia estar associado à feminilidade : "Você é bonita e meiga, acho que as mulheres como você devem ser felizes, mas elas são idiotas." Ou ainda : "Espero que você não venha me doutrinar com suas idéias, certamente de direita..."

Nessa época, seu universo era repleto de fantasias sádico-orais, tanto que seu corpo era vivido como um espaço vazio, o qual era necessário preencher constantemente para não desaparecer. Além disso, ela não sabia discriminar suas sensações corporais, ignorava se fazia frio ou calor ; não podia entrar em contato com a realidade. Suas fantasias sobre as relações sexuais eram expressadas como se se tratasse de comida : "As gordas se tornam mais gordas e as magras, elas ficam secas ! » Nessa época ela se levanta às quatro horas para tomar o café da manhã : oito a dez maçãs, que ela devora. O que eu lhe traduzo como seu desejo de me devorar, para preencher seu corpo vazio de afetos.

Progressivamente, o quadro torna-se uma espécie de bolha marcada pela ambigüidade, na qual nós podemos, as duas, discernir, no interior de seu corpo, os espaços sentidos como vazios.

Na contratransferência, eu experimento o seu ódio, tanto quanto seu desespero, e sofro com suas somatizações no meu corpo :
Daniella : "Eu estou gripada, constipada ; tenho catarro no meu nariz."
Eu traduzo em palavras : "É preciso que você comece a chorar por alguma parte."
Daniella : "Eu ainda não fiquei menstruada, estou com dor nos ovários..."
E eu sinto essa dor no meu corpo.

Por intermédio de suas demandas muito maciças, muito arcaicas, ainda longe do espaço psíquico, Daniella me faz saber que tem um corpo vazio, ferido, em busca de uma mãe que o preencha de sentidos, protegendo-o do seu desejo. A menstruação é um grito : "Eu afasto a menstruação porque ela significa crescimento e crescimento para uma mulher significa sofrimento !" Eu a escuto, a observo e começo a imaginar o que ela seria se se tornasse uma mulher bonita...

À medida que expressa suas fantasias, seu corpo se transforma em pai corpulento e violento, em mãe maltratada, em velha decrépita ou em menina apavorada, a menina que ela era quando saiu de seu país e começou a peregrinação através das fronteiras antes que a família pudesse se estabelecer no México e montar uma pequena pizzaria para assegurar a sobrevivência.

Ao voltar de uma viagem pelo seu país natal, dezesseis anos depois que emigrou, Daniella declara : "Tenho enxaqueca, estou com dor nos olhos, estou deprimida. Fui ao bairro onde eu morava. Na Argentina eu visitei a escola... ela estava tão velha... (ela explode em lágrimas), mas era a minha escola, depois de tudo... eu sofri lá... eu me lembro, tinha um sapo e eu protegia os olhos... Esse detestável imóvel não me reconhecia e eu tampouco... ninguém me reconhecia, mas eu também não os reconhecia."
Terapeuta (T.) : "Em dezesseis anos as pessoas mudam, Daniella também mudou. O que você vê na sua análise, como o sapo da sua lembrança, é um pouco das coisas perigosas que lhe fazem mal aos olhos..."

Numa atmosfera de intimidade, Daniella pôde expressar suas questões fundamentais sobre a diferença anatômica entre os sexos, suas fantasias bissexuais, a de possuir seu pai ou a fantasia de que eu a possua...Suas teorias sobre o que significa o masculino e o feminino...Eu escuto uma menina brincando e se perguntando o que significa ser mulher :
Daniella : "Acho que vou ter a enxaqueca... Sua saia me perturba.
Eu fecho a cortina e deixo a sala ligeiramente na penumbra. Escuto em silêncio.
Daniella : "Eu sempre quis o sexo dos homens, eu me pergunto : como ele será ? Algumas vezes eu queria tocá-lo... Lembro-me de que quando era pequena minha cabeça ficava na altura da braguilha do meu pai... Eu olhava a sua calça... Sonhei com Fidel Castro. Ele me trazia comida..."
D. continua um solilóquio que me faz pensar na capacidade de ser só na presença da mãe, como diz Winnicott.
D. : "Pierre gosta muito de mulheres como Madonna, eu não sou seu tipo. São fetiches !"
Terapeuta : "Parece-me que a questão é o que um corpo de mulher deve ter para agradar aos homens ?"
Daniella : "Mmm"
T. : "Talvez seja gostar e cuidar de seu corpo real e não de um fetiche." ·No fim, Daniella se remexe docemente no divã, como um gato ou uma criança que se levanta : "Não estou mais perturbada por sua saia. As listras de enxaqueca desapareceram..."

O trabalho analítico nos permite reconstruir o que ficou defeituoso na história infantil de Daniella : o apoio narcísico da mãe através da libidinização do corpo de sua filha. A história intergeracional do sofrimento das mulheres de sua família, a depressão e o mau trato faziam da aceitação da feminilidade uma tarefa quase impossível. Além disso, nessa época, sua irmã mais velha tinha parido um bebê anencéfalo. Foi preciso revisitar sua árvore da vida, tanto quanto seu percurso itinerante por diversos países, para que ela encontrasse seu país de origem, aquele de seu corpo de mulher ou sobretudo aquele de uma menina vista pelo olhar amoroso da mãe. Olhar que é a origem da construção do narcisismo primário para a menina. Ao longo do desenvolvimento, ele permitirá que se crie um continente de angústias arcaicas de abandono ou aniquilação. Esse corpo continente faz que a menina possa sentir que existe e se separar do corpo materno para se voltar para a presença paterna e mais tarde para o parceiro sexual. Para Daniella, o percurso passava pela metáfora do olhar materno na transferência, olhar que abria para ela o acesso a seu corpo, ao seu pensamento e à relação amorosa com um homem.

No final de sua análise Daniella estava transformada numa jovem mulher agradável, feminina. Ela tinha voltado a menstruar adquirira uma sensualidade que a tornava atraente. Ela me lembrava uma jovem mulher (uma amiga de esportes) da qual eu me havia reaproximado nos meus devaneios alguns anos antes. Daniella tinha abandonado seus estudos políticos. Tornou-se professora de francês ; trabalhava na universidade. Tinha um companheiro com quem mantinha uma relação estável, que parecia suficientemente harmoniosa ; pensava na maternidade, mas ficava ainda hesitante. Alguns anos mais tarde, ela me enviou uma carta para anunciar seu casamento e sua maternidade.

O corpo como espaço de inscrição psíquica

Assim, as reflexões nascidas do tear transferencial-contratransferencial nas análises nas quais analista e paciente são mulheres lembram que o corpo constitui um plano primário de inscrição psíquica cujo mecanismo central é a identificação e no qual o papel de espelho da mãe é fundamental a esse estado de conhecimento proto-simbólico, graças ao qual o ser humano aprende a se reconhecer (cap. II). É um espaço de inclusões recíprocas (Sami Ali, 1976) que pode se anunciar na fórmula seguinte :
"Eu sou – minha mãe é
Minha mãe é – eu sou
Meu corpo é – o corpo de minha mãe"
Percebe-se que essa identificação é particularmente evidente quando mãe e criança partilham o mesmo sexo e os conflitos que se referem à mãe se transmitem também à filha.
Essa perspectiva introduz a dimensão intergeneracional na qual essas identificações primárias se inscrevem, o que se pode anunciar desta maneira :
« Eu sou porque minha mãe me olha.
Eu sou o desejo de minha mãe
Eu sou o desejo que minha mãe pôs em mim pelo desejo de sua mãe..."

Talvez fosse possível evocar a metáfora do bloco mágico (Freud, 1924) não somente para falar da memória ontogênica, mas também dos traços que se transmitem e se transformam através das gerações.

Entretanto, há as percepções que vêm do interior do corpo. Nessa dimensão, a experiência interior do próprio corpo : vagina, útero ou pênis, interior-exterior, ativo-passivo, dar-receber, todos esses elementos constitutivos definem constelações diferentes da percepção de si e do mundo. Eles preparam o terreno da sexualidade e do tornar-se mãe ou pai.

Algumas observações metodológicas a respeito da técnica da consulta terapêutica pais-bebê

Seria sem dúvida abusivo generalizar os dados recolhidos na situação ideal de consulta terapêutica. No entanto, essas duas situações clínicas têm em comum o fato de que é o analista que os põe em prática e seu equipamento psíquico e corporal faz parte disso.

A consulta terapêutica tal como definida por Serge Lebovici apresenta de fato um ponto de ancoragem teórica a partir do segundo tópico e põe à frente o aspecto econômico do psiquismo. Ela introduz a dimensão intergeneracional, procura estabelecer uma passagem de intra a interpsíquica e vice-versa.

A partir da utilização do (1) hic et nunc da consulta e da narrativa da história familiar, o terapeuta vai utilizar a empatia metaforizante e o enactment como técnica, servindo para representar os aspectos inconscientes do paciente.

O terapeuta vai usar suas emoções corporais para reenviar ao paciente uma ação ou um gesto que vai no sentido de uma co-construção. Essas emoções e esses fantasmas que circulam na cena da consulta vão utilizar o corpo do analista como a moradia de sua elaboração. Então o corpo da terapeuta mulher servirá à paciente que, através dele, vai mostrar os conflitos entre o pólo erótico e o pólo maternal de seu corpo feminino. Ele representa uma espécie de útero secundário, podendo ajudar a metabolizar essas angústias arcaicas e a diminuir a clivagem que pode existir entre os dois pólos, ao mesmo tempo em que cresce o campo de compreensão da mãe sobre sua história transgeracional. Certos fantasmas podem, então, ser revisados. O corpo da terapeuta mulher pode ser então utilizado pela paciente como espaço de construção metafórica de seu percurso de mulher e de mãe. Uma transferência em vários níveis pode, então, se estabelecer, contribuindo para mobilizar os investimentos narcísicos e libidinais ao nível edipiano e pré-edipiano. É freqüentemente aí que aparecem os conflitos na relação mãe-filha.

Alguns esboços das consultas terapêuticas mãe-criança que pudemos trazer parecem ilustrar o papel do sexo do terapeuta nas interações que se estabelecem entre terapeuta e paciente, como foi frisado por S. Lebovici (1997).

Alexandrine e o pecado maternal

 Sra. G., jovem mexicana casada com um coreano que ela descreve como protetor, muito religioso e um pouco ciumento, vem à consulta com Alexandrine, de dois meses. A garotinha vai bem, mas a mãe se questiona sobre como educá-la, em razão da diferença de culturas, de língua e de religião entre seu marido e ela. Ela é católica, mas, por causa do marido, aceitou se converter ao budismo. Antes do nascimento de Alexandrine, teve uma falsa gravidez, de um menino, pensava ela. Em seguida seu marido ficou decepcionado por ter uma filha. Para compensar essa decepção, ela lhe propôs escolher o nome do bebê. "Já que eu fiz o pecado, te ofereço tudo inteiro, você pode lhe dar seu nome", ela disse a ele.

Como a sra. G. não amamenta a filha, ela diz entediar-se e pensar em outra coisa enquanto lhe dá a mamadeira. Durante a consulta, Alexandrine, que acorda, pede para mamar ; sua mãe a põe na poltrona e encaixa a mamadeira com a ajuda de uma almofada. Enquanto conversa comigo, tira várias vezes a mamadeira da boca do bebê, que está mamando avidamente. Então decide que o bebê não tem fome, guarda a mamadeira e evoca sua primeira lembrança de infância : ela tinha fome e sua mãe dormia até tarde ; então foi à cozinha para pegar leite, mas a mãe tinha colocado veneno para rato no mesmo frasco ; ela foi levada ao hospital para uma lavagem de estômago. Uma outra lembrança : quando menina, fugiu de casa.

Surpresa pela impossibilidade em que se encontra esta mãe de entrar em contato com seu bebê e pelo abandono em que o deixou, eu lhe peço que o embale cantando uma canção. Ela não sabe canções de ninar, tenta se lembrar de uma cantiga mexicana, mas não consegue. Está toda rígida, não sabe o que fazer com o bebê ; então eu me ponho ao seu lado e começo a cantar a canção de ninar que todas as mães sul-americanas cantam para o bebê. Ela acompanha, o bebê vira a cabeça, olha sua mãe e sorri. São momentos de grande emoção quando se vê a menina reagir à voz materna, estabelecendo um diálogo que vai reconfortar a mãe. Ao fim da consulta, a sra. G. diz à filha : "Aprendemos muitas coisas hoje" e decide contar tudo à sua mãe, já que em breve irá ao México.

Pode-se formular a hipótese de que a sra. G. experimenta dificuldades de se identificar com a própria mãe para nutrir seu bebê e as carências no seio maternal que ela parece ter sofrido poderiam agir no nível do superego arcaico e punitivo. A cólera recalcada contra sua mãe vai se projetar no seu bebê, impedindo-lhe de maternar a menina como ela mesma teria desejado ser cuidada por sua mãe. Por outro lado, é provável que ela considere seu corpo um objeto mau e, portanto, impróprio para dar a vida e nutrir uma criança. O gesto surpreendente que consiste em tirar a mamadeira justamente no momento em que o bebê está mamando leva a pensar que a mãe experimenta, então, angústias de envenenamento, como os fantasmas arcaicos a respeito da boca, da penetração e, provavelmente, da sua própria sexualidade incestuosa. Sob essa ótica, o superego pode tomar a forma de um mandato imposto à criança pelo superego inflexível dos pais. Então a sra. G. esperava de seu bebê, de apenas dois meses, que fosse independente como ela mesma tinha sido forçada a ser, em razão das falhas de sua mãe. Ela pedia que o bebê pegasse a mamadeira com as próprias mãos e se questionava sobre os "limites" que devia estabelecer com a criança !

Elementos culturais e lingüísticos vêm se juntar à problemática familiar. "Ela não pode se concentrar para ficar com seu bebê ; só pensa no que tem para fazer..." Pode-se encontrar aqui os sentimentos de invasão, que constatamos entre as grávidas imigrantes (2) . A vulnerabilidade e o fenômeno de transparência psíquica que acompanham o período pré-natal para a mulher são elementos que explicam que a gravidez e o parto em situação migratória reativam a perda do quadro cultural e psíquico, como mostra o comportamento maternal da sra. G. Esses acontecimentos não são acompanhados pelo grupo no momento da invasão do invólucro maternal, físico e psíquico, eles se transformam freqüentemente em fatores traumáticos. Observa-se (3) que, nas sociedades tradicionais, a gravidez é um momento inicial no qual a futura mãe é necessariamente acolhida pelas outras do grupo : acompanhamento, preparação nas diferentes etapas, interpretação de sonhos... Então, nós avançamos a hipótese de uma patologia de exílio, patologia que não pode se situar no nível dos conteúdos que podemos inferirque sejama priori universais, mas se encontra, em contrapartida, no nível do funcionamento dos conteúdos e dos processos (Moro, ibid.). É o que acontece entre a sra. G., a pequena Alexandrine e a terapeuta, na medida em que o invólucro maternal pôde ser restituído por um enactment por parte da terapeuta. Nessa situação, a terapeuta se identifica com a mãe que a sra. G., menina desejosa de carinho, procurava recuperar e também com essa criança que, diante dela, chamava fortemente a atenção, estimulando seu desejo de lhe acariciar. Portanto, Alexandrine mostrava uma força que lhe ajudava a superar os momentos nos quais se encontrava privada da "cobertura maternal", sem mergulhar no desespero ; ao contrário, graças à sua reatividade, ela contribuía para maternar a mãe ; assim, terapeuta e bebê estão aliados nessa tarefa.

Cecília, a criança diabólica

Cecília tinha um ano de idade quando sua mãe me pediu uma consulta de urgência : ela queria saber se sua filha era uma criança normal ou "diabólica", porque ela chorava dia e noite, se recusava a comer e tinha, sem motivo aparente, grandes ataques coléricos que a faziam arrancar os cabelos...

Eu recebi a mãe e a filha.
A mãe : "É um inferno ! »
Cecília, que berrava, caiu de repente num sono profundo.
Durante esse tempo, sua mãe contou : Cecília é a última de três filhas dos pais. A mãe, filha mais velha de quatro crianças, descreve seus pais como um casal de crianças. Seu pai, apesar do casamento, jamais saiu do lar dos próprios pais. Depois que estes morreram, ele continuou a viver com as irmãs mais velhas. Por sua vez, sua mãe a encarregou, como filha mais velha, de criar dos irmãos, enquanto saía com o marido, aos domingos, como se fossem namorados.

O pai de Cecília, de origem indiana, primogênito ele também de cinco crianças, sofreu com o alcoolismo e a violência do próprio pai durante a infância. Os pais de Cecília se casaram com a intenção de dar aos filhos tudo de que seus pais lhes haviam privado. Antes da gravidez de Cecília, a mãe sofreu uma grave doença ; durante a gravidez, seu marido, que ela descreve como um homem habitualmente tranqüilo, teve uma aventura com uma mulher casada que acabou com uma cena violenta : o marido ciumento queria matá-lo, provocando problemas econômicos para a família. Cecília nasceu em meio a essa situação.

Ao longo da primeira consulta, enquanto Cecília dormia e a mãe me contava a sua história, a criança acordou e começou a berrar ; eu tentei conversar com ela, me aproximar, mas ela me deu as costas. A mãe parecia transtornada, incapaz de acalmá-la. Eu intervim pedindo que brincassem juntas ; mãe e bebê pareceram apaziguadas.

É porque eu agi primeiro no nível da realidade, para socorrer o desespero materno, e essa intervenção fez surgir uma aliança terapêutica, permitindo abrir um espaço intermediário de escuta e de brincadeira no qual mãe e filha puderam começar a se descobrir, a se reaproximar uma da outra. Essa aproximação era difícil porque, para a mãe, Cecília estava associada a um objeto maternal mau que a ameaçava com toda a violência que ela tinha conhecido durante sua infância. As trocas mãe-filha estavam invadidas pelas fantasias agressivas e destrutivas da mãe, mesmo que, por sua vez, Cecília reagisse com grande cólera diante da incapacidade maternal, combinação que as levava a uma espiral de violência.

À medida que a terapia avançava, Cecília encontrava seu lugar na família. Mãe e menina construíam um espaço de intimidade. A criança, por sua vez, dava um lugar diferente em seu esquema mental para seu pai e sua mãe. Durante uma consulta à qual estavam presentes só Cecília e o pai, mudanças importantes apareceram no comportamento da menina, quando ela pediu para mamar. Como ocorre normalmente, o pai, diferentemente da mãe, se impôs : "Espere, Cecília, estou falando com a sra."

A terapia, que durou dois anos, permitiu que os pais compreendessem as fantasias que prejudicavam as interações com a criança. Quanto a Cecília, ela superou os problemas alimentares e os ataques coléricos e seu desenvolvimento foi suficientemente satisfatório. Essa terapia teve igualmente efeitos positivos indiretos sobre o restante da família, porque a mãe desenvolveu melhor capacidade de perceber o sofrimento dos filhos e ter uma reação mais de acordo com suas necessidades.

Edwige e os demônios incestuosos

Edwige, vinte e seis anos, solteira, abandonou seus estudos de arquitetura. Está grávida de seis meses e se encontra mergulhada em conflitos ligados ao nascimento da criança. Ela tem certeza de que esta terá o mesmo destino funesto que as mulheres de sua família e vai abandoná-la como ela mesma foi abandonada por sua mãe.

A família sofreu muitas perdas. Os avós maternos morreram em um trágico acidente, quando sua mãe tinha seis anos. Esta última sofria de episódios freqüentes de depressão e levava uma vida afetiva bastante instável, tendo vários amantes e fazendo pequenos trabalhos num meio ligado ao mundo da moda e da publicidade. Edwige ficou numa pensão, não vendo sua mãe mais que poucas vezes irregulares. Ela começou a praticar jogos sexuais com colegas de escola e acha que foi violada por um tio, mas suas lembranças são bastante confusas. Aos vinte e dois anos, encontrou um homem casado, arqueólogo, por quem se apaixonou. Ela o acompanhou pela América, onde ele fazia explorações. Algum tempo depois, ele decidiu pôr fim à relação. Edwige, então, tentou o suicídio, e passou a levar uma vida errante. Para ganhar a vida, fez modelagem e outros trabalhos diversos.

Quando Edwige veio me consultar, ela sofria de fantasias muito invasivas. Ela temia que o bebê tivesse uma maformação. Durante as sessões, manifestava angústias muito primitivas referentes às transformações de seu corpo e não se sentia pronta para assumir a maternidade. Ela representava o bebê como um ser cruel que repetirá a situação familiar ; uma mistura constante de amor e ódio e da ligação ambivalente com sua mãe colore suas representações do bebê e a ligação maternal que poderia estabelecer com ele. A idéia do parto a aterrorizava, ela estava cheia de fantasias sadomasoquistas e incestuosas. Encontramos, porém, uma fórmula para conter sua ansiedade : durante as sessões, ela olhava a "Maternidade Maia", uma estatueta de cerâmica que eu tinha sempre na minha mesa de trabalho e representa uma mulher indiana dando à luz. Ela está ajoelhada, as pernas afastadas, e tem nas mãos um cordão em volta de si para fazer descer a criança através do canal vaginal. Essa mulher de cerâmica tem o rosto voltado para o céu, o gesto austero, a expressão impassível. Edwige manifesta seu interesse por essa figura e a liga à minha origem mexicana. Eu lhe explico o seu significado e nós falamos do corpo feminino e da maternidade.

Ela traz um sonho : "Eu estou dentro de um barco, cheio de gente que não reconheço, o mar está agitado e tenho muito medo, mas de repente me lembro que sei nadar ; eu me vejo menina com minha mãe numa ilha com pássaros tropicais, que me olham..." Edwige associa o barco às suas múltiplas viagens, evoca a paisagem paradisíaca das ilhas onde passou férias. Mas na paisagem há agora um pássaro diferente, sou eu que estou ao lado dela, que a olho e a acompanho.

Apesar de suas apreensões de se ver rejeitada, como ocorreu com sua mãe durante a gravidez, Edwige decide prevenir o pai sobre o próximo nascimento. Este, inicialmente surpreso, aceita em seguida acompanhar Edwige durante o parto, o que para ela foi muito reconfortante. Após o parto, Edwige reconstrói o acontecimento : "Era um momento umbilical, eu estava tranqüila, meu companheiro estava ao meu lado e eu achava natural que o pai estivesse lá. Eu sentia que você estava lá também, eu tinha a força de empurrar como a mãe maia. Quando o bebê saiu, eu senti que tocava o interior de meu corpo ; quando minha pequena chorava, era a minha alma que chorava..."

Assim, nessa situação, o fato de eu ser uma mulher e de fazer parte de uma cultura diferente da dela pôde ser utilizada na construção de um setting continente para Edwige. A especificidade da minha herança cultural serviu para introduzir as marcas referentes à maternidade e à transmissão de mãe para filha, o que faltava na história de Edwige.

A transferência maternal tornou possível a construção de uma metáfora que permitiu a essa jovem mulher estabelecer representações referentes ao parto, visto, portanto, como uma experiência natural reservada à mulher e não como um ato perverso. Essas representações lhe permitiram neutralizar os fantasmas aterrorizantes que a invadiam. A gravidez de Edwige tinha reativado fantasias muito arcaicas que suscitaram angústias para as quais ela não tinha continência para contê-las. De minha parte, senti rapidamente o desejo de ajudar essa jovem mulher, que, em seu sofrimento, inspirava- me muita ternura. Pudemos, assim, trocar palavras sobre as emoções estranhas que ela experimentava, sobre seu corpo que se transformava e sobre o que ia acontecer durante o parto. A libido investida no objeto perverso pôde, então, se transformar em libido com um objeto maternal e os "demônios incestuosos" puderam ser exorcizados. Freqüentemente ela evocava seu grande desejo de sentir um contato maternal, mas em seguida apareciam as fantasias perversas que a transtornavam. Algumas vezes eu colocava minha mão sobre ela, o que a aliviava e acalmava suas angústias : ela podia, então, ser tocada por outra mulher sem que isso fosse perverso. Eu me tornava para ela uma figura maternal, na qual, agora, ela podia confiar.

É interessante perceber que à medida que ela se reconciliava com essa figura maternal, aceitava também estabelecer uma ligação com o pai do bebê, que, contrariamente ao que tinha acontecido com sua mãe, tinha reconhecido a paternidade. Uma tríade parental poderia se constituir para Aurora, o nome que os pais deram ao bebê.

A terapia continuou alguns meses após o nascimento. Durante essas sessões, Edwige podia se aproximar do corpo de sua filha, amamentá-la, olhá-la, tocá-la. Podia separar sua função maternal da sua sexualidade, aceitando que esses dois aspectos lhe pertenciam. Por exemplo, ela se ocupava da filha ao mesmo tempo em que falava de sua sexualidade e fazia projetos para o futuro. Um clima de intimidade se construía, de tal maneira que alguma coisa referente ao feminino podia circular entre nós.

O valor metaforizante e o valor do enactment das intervenções do terapeuta

Com esses esboços, quisemos mostrar, sobretudo, que os efeitos traumáticos dos acontecimentos dramáticos que acompanham a gravidez e a maternidade podem se transmitir de mãe para filha através de seu comportamento sexual e maternal. Eles se atualizam no momento da gravidez e do parto, mesmo se as circunstâncias reais não são mais as mesmas. Estabelece-se uma variedade de intersubjetividade traumática; o sofrimento causado por essas experiências ficam intactos e novas experiências dolorosas vêm se juntar ao núcleo traumático não elaborado e transmitido.

Na consulta com uma terapeuta mulher, esse sentimento no nível do corpo feminino pode ser posto a serviço da empatia metaforizante. Esse fenômeno se situa, segundo propõe Lebovici (sobre cap. 3, ver empatia metaforizante e enactment), antes da palavra, no nível de uma ação no próprio corpo, baseada nasemoções primárias.

A dupla ressonância erótica e maternal, presente no corpo feminino, pôde ser utilizada para ajudar a jovem mãe a controlar suas angústias arcaicas tanto quanto as que são ligadas à reativação de fantasias incestuosas e homossexuais através da gravidez ou da amamentação.

É possível que a complexidade dos fenômenos apresentados, fenômenos referentes às vicissitudes do processo do tornar-se mãe, encontre sua inscrição no fato de que a sexualidade feminina e os órgãos femininos contêm um aspecto interno e escondido que aparece somente com a penetração amorosa e a da maternidade; ela integra, portanto, a presença do outro em sua essência. O papel da mãe diante da filha não consiste em lhe transmitir um masoquismo fatalista ligado a um corpo em sofrimento ou a uma submissão social que a reduz ao estatuto de eterna pequena. Por outro lado, a transmissão é ainda menos a da negação da diferença do feminino. Na realidade, a mãe, proporcionando à filha os cuidados que lhe permitem considerar seu corpo alguma coisa preciosa, faz que ela possa se ver no espelho do corpo materno, este corpo que a mãe cuida, desejosa de se reencontrar na menina amada, para que por sua vez sua filha possa adormecer sonhando com seu príncipe encantado... ou ao menos crescer assumindo sua feminilidade.

Tradução : Denise de Sousa Feliciano Monteiro


(1) N.T. Aqui e agora.

(2) Moro MR. Psychothérapie transculturelle des enfants et des adolescents. Paris : Dunod ; 2000 (1re éd. ; 1997).

(3) Para uma reflexão sobre essas questões, conferir a revista L’autre, Cliniques, Cultures et Sociétés 2000 ; 1(1), sob a direção de M.R. Moro.