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Pour citer cet article :
Giraud F, Moro MR. Parentalidade e Migrações In : Pereira da Silva MC., Ser pai, ser mae – parentalidade : um desafio para o terceiro milênio. Brésil : Casa do Psicologo ; 2004. p. 203-9.
Parentalidade e Migrações
François GIRAUD*
Marie Rose MORO**
O acesso à parentalidade constitui uma experiência universal e fundadora que todas as sociedades valorizam e envolvem um conjunto de palavras, cerimônias ou, às vezes, gestos rituais. Cada sociedade, qualquer que seja sua transformação, acompanha essa passagem, porém de maneira diferente. O fator migratório traz necessariamente, portanto, confrontos aos modelos diferentes de "tornar-se pais".
Na história individual, "pensar-se" pai implica a necessidade de uma reorganização das representações de si e das suas relações com os outros, os próprios pais em particular, mutação que é geralmente bem acolhida, mas muitas vezes carregada de ambivalência, como Serge Lebovici ressalta numa entrevista.
O fato migratório não modifica fundamentalmente esse processo, mas lhe confere uma ressonância particular pelo fato de as reorganizações se darem num contexto que não é só diferente do ponto de vista cultural, mas numa situação subjetiva de relativa desestabilização do sujeito que temos o hábito de chamar de "traumatismo migratório" e toma a forma, segundo a expressão do sociólogo Shultz, de "deterioração das zonas de pertinência" (Shultz, 1944).
Em outras palavras, o fato de tornar-se pais, vivido no seu país de nascimento, na presença de sua família e de sua sociedade como uma mutação difícil, mas igualmente rica de potencialidade e de estruturação de si, é algumas vezes vivido em situação migratória, como um episódio doloroso sem contrapartida, que não vem sustentar os apoios culturais e sociais construídos ao longo do tempo, para responder de maneira singular a essa experiência universal.
Em certas circunstâncias, a experiência migratória pode ser percebida como um arrancamento, uma modificação do ser e uma verdadeira troca. Ela é efetivamente uma mudança de conteúdo psíquico no sentido dado ao termo por psicanalistas como Bion ou ser descrito por Sayad como um movimento duplo, o de ser pai e ao mesmo tempo imigrante, inserido numa nova cultura, e também "um emigrado", alguém que deixou sua cultura (Sayad, 1999).
Isso introduz no sujeito uma dupla defasagem com relação ao conjunto sociocultural de acolhimento e com relação ao conjunto sociocultural de origem. Dito de outro modo, o migrante e também seus descendentes na escala de uma ou duas gerações, conforme o caso, se encontram mais ou menos postos numa situação de "dupla ausência" (Sayad, 1999) que cria uma grande vulnerabilidade para os migrantes em si e para seus filhos.
Isso torna o migrante mais vulnerável diante das dificuldades mais comuns da existência (a passagem de uma idade da vida a outra) e dos constrangimentos impostos pela sociedade de acolhimento : pobreza, exclusão, racismo, isolamento em guetos.
Em outras palavras, o exercício da parentalidade encontra obstáculos específicos para os migrantes, que superdeterminam a pobreza social ou econômica, sem que possamos negligenciar, é claro, estas últimas. E isso apesar do fato de que, globalmente, a migração representa para muitos, comparativamente à situação de partida, uma melhora no status econômico, senão no social, do indivíduo e de sua família, apesar do racismo no ambiente.
Se a parentalidade é efetivamente algumas vezes percebida no mundo contemporâneo como um exercício difícil, como o provam numerosas obras sobre esse ponto ou os temas habituais quanto à demissão dos pais, os migrantes estão algumas vezes no coração de tais polêmicas que alimentam os discursos mal-intencionados e mesmo algumas vezes bem-intencionados com o objetivo de favorecer a integração dessas populações.
É dessa forma que se trata da denúncia de formas arcaicas de exercício dessa parentalidade como os castigos corporais. Pressionamos, então, os pais a renunciar a essas formas de parentalidade, em nome dos direitos da criança, fato que só podemos aprovar sem pensar um só instante nas contradições nas quais aprisionamos esses pais. Eles estão, com efeito, presos numa espécie de double bind : incitação a afirmar, por exemplo, sua autoridade, mas desvalorização, por outro lado, da forma que ela toma, e até privação para os pais, em particular, das possibilidades de transformação. Ser pai mesmo sem recorrer a tais meios, quando fazemos parte de uma sociedade onde esses castigos são praticados, ·pressupõe, ao contrário, ser levados, apoiados na sua posição de pais, verdadeiramente reconhecidos pais (reconhecimento antológico que pressupõe o reconhecimento da alteridade e da multiplicidade). Ser pai se conjuga no plural ? Pensar este fato lhes permitirá renunciar às formas violentas e degradantes da educação.
Essa situação tem como resultado, que não é, aliás, próprio às populações migrantes, tornar, por exemplo, quase impossível o exercício da autoridade paterna diante da escola ou de instituições que só admitem uma lei universal, na tradição republicana, desde que ela tome uma forma exclusiva e relativamente bem datada historicamente e situada geograficamente, aquela dos países ocidentais do fim do século XX. Esse modelo, aliás, é tão menos confiável que expõe não só seus limites, mas suas falhas mesmo em contextos relativamente favoráveis.
Parentalidade e culturas
Evidentemente, a migração se inscreve na dialética algumas vezes difícil das modalidades de inscrição parental de uma dada cultura. Dito de outro modo, a migração é precedida pela existência potencial e real de modelos simbólicos de referências parentais distintas conforme as culturas, mesmo se se trata sempre de responder às mesmas problemáticas humanas de filiação e separação, de diferenciação e de transmissão. Da mesma forma que os antropólogos
sublinharam a extrema diversidade de formas de "parentesco" (Heritier, 1981), podemos igualmente admitir que o exercício da parentalidade não é menos diversificado.
Desse ponto de vista, assim como Devereux (1967, 1970) havia fortemente ressaltado, o saber clínico elaborado pela psicanálise permanece sendo, em linhas gerais, a perspectiva teórica mais propícia à compreensão fundamental do que está em questão no próprio fato da parentalidade. Assim, a relação de parentalidade pressupõe a ocupação de um lugar que permite à criança resolver melhor seu Édipo pela renúncia ao amor da figura parental do mesmo sexo e a abertura ao objeto exterior (interdição do incesto).
A relação de parentalidade depende, no entanto, de lógicas culturais particulares. Assim, as modalidades de transmissão se organizam, por exemplo, nas sociedades patrilineares e nas matrilineares de maneiras sensivelmente distintas, o que implica que a figura do pai é "desmultiplicada" no segundo caso, enquanto não é o caso no primeiro. Um tio tem nos grupos matrilineares responsabilidades particulares no terreno educativo que são habitualmente assumidos pelo genitor num contexto patrilinear.
De uma maneira mais geral junto a uma criança, a parentalidade é no oeste da África, por exemplo, em parte dividida por um conjunto de "pais" classificatórios (os homens da mesma geração), que têm uma responsabilidade e intervêm diretamente se necessário ou indiretamente na educação da criança. De mesmo modo, há os mais velhos em relação a seus irmãos menores, sobretudo quando o pai já morreu.
É então indispensável tomar em consideração essas lógicas culturais de base a fim de não interpretar mal modos de agir que, num outro contexto, poderiam ser percebidos como desviantes ou suscetíveis de "dar conta" de certas psicopatologias. Assim, é útil reconhecer numa criança que ela é o retorno de um ancestral e de se dirigir a ela como tal (Bonnet, 1981, 1988).
Convém efetivamente conseguir, no contexto da migração, que as populações advindas de universos culturais tendo lógicas diferentes das dos países de acolhimento possam exercer sua função parental por meio de um trabalho de "tradução" e de recriação da parentalidade.
Assim, nas sociedades individualistas ocidentais, de fraca natalidade, a parentalidade não pode, com efeito, ter sua função educativa do mesmo modo que nas sociedades onde têm um papel preponderante a família estendida, o vilarejo ou os parentes classificatórios : por exemplo, numa cidade do oeste da África, não é inconcebível deixar as crianças correr livremente na medida em que eles são suscetíveis de estar sempre, de fato, sob a guarda de um adulto, quer dizer de um parente. Não diremos que ele está entregue a si mesmo. Nos bairros da periferia da Europa do oeste, por causa dos perigos potenciais, é preciso inventar outras modalidades de setting, por exemplo, por meio de associações.
Do mesmo modo, a função preeminente da família extensa na manutenção ou no desenvolvimento do capital econômico, social ou simbólico de cada um de seus membros na ausência de toda proteção de um Estado garantidor dos direitos do indivíduo explica em boa parte a atenção que é dada pelos pais na constituição das alianças. Daí certos dramas ligados, na migração, às contradições entre um ideal de emancipação feminina (aprendido na escola, por exemplo, por meio das peças de Molière) e das exigências parentais que parecem exorbitantes. É por isso que o exercício da parentalidade é particularmente posto à prova no momento da adolescência, quando filiação e afiliação podem entrar em contradição (Moro, 2000).
Os dois eixos da parentalidade : maternidade e paternidade
A migração é mais freqüentemente, salvo quando se trata, por exemplo, de populações obrigadas a se exilar em decorrência de questões políticas graves que as põem em risco de vida, feita por pessoas jovens, que desejam escapar de situações econômicas difíceis, num movimento vital de busca de aventura e de superação, que marca, aliás, o dinamismo próprio desses migrantes. Como resultado disso, a maioria é solteira ou, em certos casos, de casais muito jovens que não têm ainda filhos. Algumas vezes também, a migração é de uma família já constituída cujo pai migrou anteriormente e os outros integrantes vão encontrá-lo para um reagrupamento familiar. Isso explica particularmente as dificuldades ligadas à chegada à parentalidade, para um ou outro dos cônjuges, ou mesmo os dois, que muito freqüentemente estão ligados ao primeiro filho nascido após a migração, ainda que ele não seja o primeiro do casal.
O eixo maternal
Realmente, o nascimento nesse contexto da migração ocorre precisamente nas condições que tornaram algumas vezes a gravidez problemática e as interações precoces (Moro, 1994). Isso evidencia a comprovação do eixo maternal da parentalidade.
A senhora S. vem à consulta a pedido de um médico responsável de um hospital da região parisiense, onde, grávida, ela foi hospitalizada por causa de estranhas alucinações auditivas que fazem a equipe médica temer um perigo para a criança que vai nascer. Originária do Senegal e muçulmana, ela encontrou seu marido na França, este originário do Congo, de outra etnia e outra religião. A senhora S. se queixa durante a primeira consulta de ter mal-estares e a impressão de incomodar os outros. Ela diz também : "São as pessoas que me incomodam." Ela ainda ouve vozes. "Elas falam comigo quando estou só. É o espírito que está ao meu lado". Após o nascimento da criança, a equipe médica, embora constatando que ela cuida bem de seu bebê, diz que ela sempre suporta mal o olhar dos outros, mesmo colaborando facilmente com os profissionais.
Durante a terceira consulta, a questão é como proteger o bebê, o que está de acordo com a tradição e é habitualmente indicado por uma roda de "comadres" (as mães da família e da comunidade). Na verdade, o pai e a mãe não estão de acordo, pois, pertencendo a duas culturas diferentes, divergem sobre o que se deve ou não fazer e quando. Embora nascida no Senegal, a senhora S., cujos pais são separados, encontra-se isolada e incapaz de acolher a criança com gestos adequados. Além disso, parece-lhe que sua gravidez reavivou as dificuldades pessoais anteriores.
Ela teme, portanto, por sua saúde e pela saúde de sua filha. O sentido que dá ao que lhe acontece, a hipótese etiológica que ela põe na frente é da possessão pelos "rabs" ou pelos "espíritos da água". Mas, privada de seu reduto cultural e de certo modo em maus termos com sua mãe, que a culpa de ter se casado com um não-muçulmano, ela não está apta a encontrar uma resposta adequada a esse estado que a fragilização ligada à sua gravidez levou ao máximo. Não há ninguém para reconhecer sua posição singular em relação aos espíritos, o que ameaça potencialmente sua capacidade de acolher seu bebê.
Ela se pergunta que tipo de ritual poderia protegê-la. Mas, sozinha, não pode responder. Na vivência quase alucinatória que experimenta, o acesso à parentalidade se acha comprometido. Como tornar-se pais, se não somos levados pelo grupo ? Quando somos habitados pelo non sense ? Essa situação mostra o risco que a migração faz essa mãe correr, desligando o sujeito de seu meio cultural. Com freqüência algumas mães migrantes têm problemas para investir seu filho pelo fato da solidão elaborativa e da depressão, que resultam da separação do grupo de origem e daqueles que portam os valores. Privada da ajuda de suas comadres para lidar com o sofrimento e as angústias vividas no momento da gravidez, mal preparada para ser mãe na solidão e algumas vezes invadida por uma depressão profunda, as interações harmoniosas mãe-criança se tornam problemáticas. Daí também as dificuldades de condução de ajuste às necessidades da criança.
Por causa das carências na construção da parentalidade, ou parentalização, a criança não pode co-construir com sua mãe um laço suficientemente seguro necessário a seu movimento de desligamento e de separação, o que vemos, por exemplo, nos casos de mutismo extrafamiliar. (Moro, 2000) De fato, a mãe, algumas vezes precocemente, começa um mecanismo de clivagem em relação à sua cultura de origem, "esquecendo" ou desvalorizando as práticas culturais de acolhimento da criança que são os rituais de proteção. Esses mecanismos de separação são defesas necessárias para combater os efeitos do traumatismo migratório. Sozinha, ela teve de enfrentar a sua mudança de estado de filha a mãe, sem ter as indicações das mulheres que rodeiam uma grávida, uma jovem parturiente e depois uma mãe, ou seja, o conjunto daquelas que viveram essa passagem. Essa falta demonstra uma vulnerabilidade das mães que, para se construir, têm necessidade de ser reconhecidas na sua alteridade e nas suas maneiras próprias de se sentir mulheres e mães.
O eixo paterno
Se a crise da parentalidade do ponto de vista paternal (paternalidade) parece ser uma realidade fundamental das sociedades contemporâneas, a ponto de certas disposições legais tentarem corrigir os efeitos (licença-paternidade), esta é ainda mais real no caso da migração, em que os pais estão particularmente fragilizados.
Em todo caso, há uma queixa muitas vezes nas famílias migrantes, talvez mais do que em outras, da impossibilidade de ser pai como bem entendemos e, particularmente, de se fazer respeitar pelos filhos. Do ponto de vista da escola, a situação vivida pelos professores é similar : eles têm a impressão de não ter mais interlocutores reais (impossibilidade de trazer os pais à escola) ; interpretada como demissão dos pais, essa situação marca de fato um fenômeno que leva a uma dinâmica complexa da migração e da aculturação, como nos mostra este exemplo clínico :
Senhor P., originário do Senegal, vem à nossa consulta acompanhado da mulher e de duas crianças gravemente perturbadas, Jéssica e Martim, que nos parecem crianças autistas, com comportamento estranho, e não se comunicam nem pela palavra nem pelo olhar. A mãe traz no rosto uma expressão de grande desamparo e grande dor. Ela não compreende o que acontece com seus filhos. As duas crianças são acompanhadas por uma equipe de psiquiatria infantil do setor nesse dia. De fato o senhor, bem mais velho que a mulher, já foi casado anteriormente, assim como ela. Ele foi casado com a irmã mais velha de sua esposa, com quem teve quatro filhos. Depois, ela voltou para seu país, onde morreu.
Já a senhora S. foi casada com um meio-irmão de seu atual marido. Esse primeiro companheiro também morreu. Com ele, a senhora S. tinha tido um filho, que ficou no Senegal. O senhor P. está na França há mais de 40 anos e é aposentado ; ela trabalha como faxineira, o que leva seu marido a cuidar da casa e dos filhos. Essa carga é maior porque Jéssica, a filha mais velha, é diabética e as duas crianças são esquisitas. Essa inversão de papéis, em desacordo com o costume dele, é evidentemente mal aceita por ele, que a vê como sinal de um relativo fracasso de seu projeto migratório e de seu casamento.
A situação da família parece ao mesmo tempo pesada e complexa por causa da doença e das mortes. Durante todo o tempo que a acompanhamos (por cerca de cinco anos), Jéssica fez sensíveis progressos, particularmente na comunicação com os outros. No entanto, a situação em casa continuou complexa e as posições de cada um ficaram ameaçadas.
Reina, na verdade, uma grande violência na casa, por episódio : os filhos mais velhos do marido, de seu primeiro casamento, acusam a nova mulher de ter substituído mãe. Algumas vezes, eles até batem na madrasta sem controle. Diante dessa violência, e mais amiúde diante das dificuldades da família, o senhor aparece como um homem desiludido, incapaz de exercer sua autoridade. Ele se vê como um homem velho (tem ao redor de 60 anos), doente, que tem, sobretudo, necessidade de preparar a própria morte. Para isso ele vai muitas vezes ao seu país, onde consulta curadores, os únicos, segundo ele, que podem curá-lo.
O senhor se queixa muitas vezes da dificuldade de assumir seu papel de pai na França e se refere constantemente a maneira como se faz em seu país : "Na África, diz, eles têm de chamar meu irmão de papai", o que é uma maneira de se inscrever na sua legitimidade de pai no grupo de pais classificatórios. Ele contesta a liberdade excessiva na França, reprovando seus filhos por chamar "o irmão do pai de tio e não de papai, como na África." Ele pensa que, principalmente na França, as crianças não obedecem a seus pais, que lhes escapam. Ele justifica esse sentimento contando que, numa delegacia de polícia, reprovaram sua maneira severa de agir com os filhos : "Aqui, disseram a ele, não somos selvagens."
Essa queixa ligada à paternidade impossível encobre a realidade dos problemas subjacentes que não puderam ser completamente elucidados. Ela toca de fato nas razões da partida de sua primeira esposa, sem dúvida depressiva, e sua própria depressão. Sua longa migração foi visivelmente vivida de modo muito sofrido, marcado por intensa nostalgia e um sentimento de perda de identidade : nem homem, nem marido, nem pai, na migração. O senhor não pôde psiquicamente fazer uma escolha. Retido aqui, sonhando com seu país, ele vive hoje como um morto em vida, oprimido pelas dificuldades, não está em seu lugar e não é apoiado na sua posição de pai pelos outros "pais", que são seus irmãos e primos. Sua palavra de pai é "acorrentada", diz ele, e perde boa parte de sua credibilidade e consistência recusando-se, como diz sua esposa, a encarar a "verdade", ou seja, o que marcou a partida e a morte da primeira mulher. Esse silêncio poderia estar relacionado ao silêncio de seus dois filhos.
Parentalidade e adolescência na migração
É sem dúvida na adolescência que a vulnerabilidade dos pais aparece mais como causadora de dificuldades. Sabemos que nessa fase, a volta das exigências pulsionais remobiliza os esquemas de realização edipiana que se organizaram na primeira infância. Assim, o pai é posto como o portador da lei simbólica, reguladora dos comportamentos, estruturada por ela, como na história do senhor P.
A adolescência desorganiza as modalidades identificatórias e os modelos de afiliação. De fato, a disponibilidade do adolescente a outros objetos demanda escolhas que implicam uma separação. Esta questiona a tensão que no adolescente se instaurou entre a cultura original e a cultura de pertinência, expressão mais adequada do que cultura de acolhimento ; a
maioria desses adolescentes não conheceu, aliás, outra coisa. Portanto, esses processos de separação se chocam com a posição parental e a fragilizam.
A migração introduz, portanto, uma descontinuidade manifesta no exercício da parentalidade. Ela põe em questão os processos de afiliação (quer dizer, de pertinência) que se organizam no movimento identificatório. Além dos processos de separação-individualização que acompanham e organizam a subjetivação do adolescente, este é assombrado pelo medo dessa separação, algumas vezes vivida de parte a parte como uma traição. A tentação é grande para o adolescente de se erguer ele mesmo numa origem exclusiva de sua posição subjetiva, quer dizer, de se sonhar pai de si mesmo. "Eu me fiz sozinho, sem meus pais que pertencem a um outro mundo ultrapassado, arcaico..."
Mais do que nunca, surge essa fantasia de parentificação, na qual a criança se põe numa posição de inversão da filiação (Moro e Nathan, 1995). Para escapar a essa contradição angustiante, a criança pode se ver na necessidade psíquica da errância ou da busca do traumatismo, que, como busca de limites, é de fato a busca de uma autoridade parental e mais precisamente paterna que ela mesma se busca de uma cultura a outra, mas é necessária como uma defesa contra o retorno das solicitações edipianas.
Isso pode, sem dúvida, ser entravado pelas dúvidas parentais quanto à validade do projeto migratório ou de sua realização. Por detrás das palavras e dos pensamentos conscientes que sustentam o andamento parental de migração, se perfila, como o retorno do recalcado, a ambivalência provável com relação ao que é vivido, de fato, pelos pais como uma perda de identidade e sobretudo como uma ruptura com os filhos que, mais que seus pais, se inscrevem na cultura de pertinência, relacionando-se cada vez menos com a cultura de origem dos pais. Isso pode se reportar também à dificuldade de ser pais ou de pensar em algum parentesco no processo de migração.
Assim como no bebê o processo de interação faz dele o filho de seus pais tanto quanto ele mesmo faz dos pais seus pais, na adolescência há uma nova etapa desse processo de co-construção da parentalidade. As exigências pulsionais reativam de modo brutal a problemática edipiana, a exigência de crescer, na sua violência, como dizia Winnicott. Isso implica um processo radical de desarragaimento que encontra eco nas próprias interrogações inconscientes dos adultos, pegos algumas vezes numa crise parental que freqüentemente se parece com uma crise do casal. Na configuração migratória, essa crise leva à questão do balanço do projeto migratório, ou seja, a relação entre o ganho de ascensão social e o custo psíquico que ela implicou, em termos de identidade (perda, transmissão, separação).
A modernidade da parentalidade em situação migratória
Como se vê, a parentalidade na migração é seriamente fragilizada e essa fragilidade encontra, sem dúvida, as interrogações contemporâneas que atravessam a sociedade como um todo. Nesse sentido, os problemas da parentalidade nas "cidades", que são "matéria elementar" para os jornalistas apressados, deveriam se inserir numa reflexão global sobre nossas sociedades modernas necessariamente mestiças e em mudança.
Embora aparentemente mais vulneráveis, os migrantes detêm, talvez, como portadores de outras experiências culturais, soluções alternativas ao individualismo contemporâneo que parece desconstruir a parentalidade : aqueles que têm recursos com a ajuda mútua dos pais classificatórios na educação dos filhos, no nível da aldeia, fazendo da educação não um papel impossível de pais isolados, mas uma empresa solidária de um grupo social ou aquele que faz, como na América Latina, intervir o padrinho (literalmente co-pai), cujo papel poderia ser revalorizado.
É, portanto, um convite a pensar na ligação social, na dimensão intersubjetiva e intrapsíquica da parentalidade o que nos fazem esses pais profundamente modernos que são os pais migrantes.
Tradução : Miriam Sarué Tawil
* Psicólogo clínico, Serviço de psicopatologia da criança e do adolescente (CHU Avicenne, AP-HP, Bobigny), Pr M.-R. Moro, Laboratório de psicogênese e psicopatologia (UFR Léonard-de-Vinci, Université Paris XIII), co-terapeuta na consulta transcultural de Avicena.
** Professor de psiquiatria da criança e do adolescente, Université de Paris 13, SMBH, Bobigny ; Chefe de serviço, Hospital Avicena, Assistência pública – Hospitais de Paris.